Em 2 de julho de 1997, a Tailândia soltou o baht. Em dezoito meses, o pânico atravessou oito moedas, derrubou um ditador de 32 anos, exigiu os maiores resgates da história do FMI — e chegou ao real brasileiro. Este é um documentário interativo sobre como o capital entra correndo e sai correndo ainda mais rápido.
EpicentroBangkok, Tailândia
DuraçãoJul 1997 — Jan 1999
Resgates FMI≈ US$ 115 bilhões
Novos pobres (Indonésia)20 milhões+
Role para investigar
Inteligência · Mapa interativo
A rede de contágio
Arraste a linha do tempo — ou aperte reproduzir — e veja o pânico saltar de país em país. Cada nó acende na data em que a crise chegou.
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Dados · Câmbio
Cinco moedas em queda livre
Valor de cada moeda frente ao dólar, indexado em 100 em junho de 1997 (valores mensais aproximados). Clique nas etiquetas para isolar moedas.
Índice 100 = jun/1997 · Fontes: séries históricas de câmbio (aprox.) · GeoFinance GPS — História das Crises
Documentário · Seis capítulos
Anatomia de um colapso
Capítulo 01 · O milagre
Trinta anos de 8% ao ano
Durante três décadas, o mundo assistiu fascinado ao que o Banco Mundial batizou de "Milagre do Leste Asiático". Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura — os quatro Tigres — junto com Tailândia, Malásia e Indonésia, cresciam a taxas que o Ocidente só via em livros de história. Arranha-céus brotavam em Bangkok e Kuala Lumpur. As Petronas Towers, inauguradas em 1996, eram o edifício mais alto do planeta.
O capital estrangeiro inundava a região, atraído pela combinação perfeita: moedas atreladas ao dólar (risco cambial "zero") e juros altos. Por baixo do brilho, porém, acumulava-se o combustível do desastre: dívida externa de curto prazo, empréstimos imobiliários especulativos e bancos que ninguém supervisionava de verdade.
As Petronas Towers, Kuala Lumpur: inauguradas em 1996, o edifício mais alto do mundo — auge do milagre. · Wikimedia Commons (CC)
Capítulo 02 · O estopim
2 de julho de 1997: o baht cai
Por meses, fundos de hedge apostaram que a paridade do baht com o dólar era insustentável. O Banco Central tailandês queimou bilhões em reservas defendendo a moeda — até não sobrar nada para queimar. Na manhã de 2 de julho de 1997, o governo anunciou a flutuação. O baht despencou mais de 50% em meses.
Bangkok ficou pontilhada de "torres fantasma": esqueletos de concreto abandonados quando o dinheiro evaporou. Os tailandeses até hoje chamam o período de crise Tom Yum Kung — amarga como a sopa.
−54%
baht vs. dólar
−55%
bolsa SET em 1997
US$ 17 bi
resgate FMI · ago/97
~350
obras abandonadas em Bangkok
A Sathorn Unique Tower: 49 andares parados em 1997. Continua inacabada até hoje. · Supanut Arunoprayote, Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
Capítulo 03 · O contágio
A gripe asiática
O pânico se espalhou como fogo em palha seca. Em semanas, caíram o peso filipino, o ringgit malaio e a rupia indonésia. Em outubro, Hong Kong perdeu quase um quarto da bolsa em quatro dias. Em novembro, o impensável: a Coreia do Sul — 11ª economia do mundo, recém-admitida na OCDE — pediu socorro ao FMI.
A lógica do investidor era simples e brutal: se a Tailândia podia quebrar, quem garante o vizinho? Ninguém quis esperar para descobrir. A saída de capital virou estouro de boiada — e a profecia se autorrealizou.
"Não foi um problema de fundamentos que virou pânico. Foi um pânico que destruiu os fundamentos."— Síntese do debate entre economistas sobre 1997 (Radelet & Sachs vs. Krugman)
Capítulo 04 · O FMI
O remédio amargo
O FMI montou os maiores pacotes de resgate da história até então: cerca de US$ 17 bilhões para a Tailândia, US$ 40 bilhões para a Indonésia e US$ 58 bilhões para a Coreia do Sul. As condições — juros altíssimos, corte de gastos, fechamento de bancos — aprofundaram a recessão antes de curá-la, segundo críticos como Joseph Stiglitz.
Uma fotografia ficou gravada na memória asiática: o diretor do FMI, Michel Camdessus, de braços cruzados, observando de pé enquanto Suharto, sentado, assinava o acordo de resgate. Para milhões de asiáticos, a imagem simbolizava uma nova forma de subordinação.
Michel Camdessus, o homem que comandou o FMI por 13 anos — e cuja foto de braços cruzados sobre Suharto (AP, 15/jan/1998) virou símbolo político em toda a Ásia. · World Economic Forum, Wikimedia Commons (CC)
Capítulo 05 · O custo humano
A era do FMI
Por trás dos gráficos havia vidas. Na Indonésia, mais de 20 milhões de pessoas caíram abaixo da linha da pobreza; em maio de 1998, tumultos deixaram centenas de mortos em Jacarta e derrubaram Suharto após 32 anos no poder. Na Coreia, o desemprego triplicou — e a geração que viveu 1997-98 chama o período simplesmente de "era do FMI", um trauma comparável a uma guerra.
Mas houve também o contrário do pânico: em janeiro de 1998, milhões de sul-coreanos fizeram fila para doar o próprio ouro — alianças, medalhas, joias de família — numa campanha nacional para ajudar a pagar a dívida externa. Foram arrecadadas cerca de 227 toneladas.
20 mi+
novos pobres · Indonésia
3×
desemprego · Coreia
227 t
ouro doado por coreanos
32 anos
de Suharto, encerrados
Palácio Merdeka, Jacarta, 21 de maio de 1998. Suharto anuncia a renúncia após 32 anos no poder. · Gov. da Indonésia, Wikimedia Commons (domínio público)
Capítulo 06 · Epílogo
Nunca mais o FMI
A recuperação veio mais rápido do que se temia: em 1999-2000 a região já crescia de novo — mas transformada. Os países asiáticos passaram a acumular reservas cambiais colossais, abandonaram câmbios fixos frágeis, sanearam os bancos e criaram mecanismos regionais como a Iniciativa de Chiang Mai. A Coreia emergiu mais competitiva do que nunca.
A onda, porém, não parou na Ásia: derrubou o rublo em agosto de 1998, quase quebrou o fundo LTCM em Nova York — e em janeiro de 1999 empurrou o Brasil à desvalorização do real. O mundo descobriu que, na finança globalizada, não existe crise local.
"Capital de curto prazo entra correndo — e sai correndo ainda mais rápido. E quando sai, não pergunta quem fica para trás."
Análise · O que 1997 ensina
Quatro lições para o monitor de risco
L·01
Câmbio fixo + dívida em dólar = bomba-relógio
A paridade dá sensação de segurança e incentiva endividamento externo. Quando quebra, a dívida explode da noite para o dia — em moeda local.
L·02
Reservas são seguro, não luxo
O trauma de 1997 explica por que a Ásia acumula trilhões em reservas até hoje. "Nunca mais o FMI" virou doutrina de Estado.
L·03
Contágio é psicológico antes de ser econômico
Países com fundamentos distintos caíram juntos. O investidor em pânico não diferencia — vende a região inteira.
L·04
Crise econômica vira crise política
Suharto caiu em dez meses. Moedas quebram governos — um princípio central de qualquer GPS de risco geopolítico.