História das Crises · Dossiê 02 · GeoFinance GPS

1998
O dia em que
a Rússia quebrou

Em 14 de agosto de 1998, Boris Iéltsin garantiu ao país: não haveria desvalorização. Três dias depois, a Rússia deu calote na própria dívida interna, desvalorizou o rublo e congelou pagamentos externos — o impensável. A onda derrubou um fundo com dois prêmios Nobel em Nova York e empurrou o Brasil ao abismo cambial. Este é o segundo dossiê da série História das Crises.

EpicentroMoscou, Rússia
O dia17 de agosto de 1998
Rublo6,2 → 21 por dólar (−71%)
Inflação 199884%
Role para investigar
Inteligência · Mapa interativo

Da Ásia ao Atlântico

Arraste a linha do tempo — ou aperte reproduzir — e acompanhe como a onda de 1997 chegou a Moscou, e de Moscou alcançou Wall Street e Brasília.

REDE DE CONTÁGIO — 1997/99 · DOSSIÊ 02 Bangkokorigem · crise asiática MoscouRUB −71% · default Kievhryvnia −51% Almatytenge −64% (abr/99) Frankfurtbancos expostos Nova YorkLTCM −US$ 4,6 bi BrasíliaR$ desvalorizado

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Dados · O colapso em três curvas

Rublo, bolsa e petróleo

Valores indexados em 100 em janeiro de 1998 (mensais, aproximados). O petróleo conta a causa; o rublo e a bolsa RTS contam a consequência. Clique nas etiquetas para isolar séries.

Índice 100 = jan/1998 · Fontes: séries históricas (aprox.) · GeoFinance GPS — História das Crises
Documentário · Seis capítulos

Anatomia de um default

Capítulo 01 · A pirâmide

GKO: a bola de neve de Moscou

A Rússia dos anos 90 vivia de empréstimos curtos. Para financiar um Estado que não conseguia arrecadar impostos, o Tesouro emitia GKOs — títulos de curtíssimo prazo com juros que chegaram a ultrapassar 100% ao ano. Era irresistível para o capital estrangeiro: bastava entrar, dobrar o dinheiro e sair. Cada vencimento era pago com emissão nova. O nome técnico é rolagem; o nome honesto é pirâmide.

Por trás dela, uma economia frágil: arrecadação em colapso, salários públicos atrasados por meses, oligarcas que haviam capturado os ativos do Estado nos leilões dos anos 90, e quase metade das transações industriais feitas em escambo, sem dinheiro.

Boris Iéltsin, presidente da Rússia
Boris Iéltsin. Em 14 de agosto de 1998, garantiu publicamente que não haveria desvalorização. · Kremlin.ru, Wikimedia Commons (CC)
Capítulo 02 · A tempestade perfeita

Petróleo a 11 dólares

Então veio 1997. A crise asiática derrubou a demanda global por energia, e o Brent despencou para cerca de US$ 11 o barril — para um Estado cuja receita dependia de petróleo e gás, foi uma sentença. Ao mesmo tempo, os investidores queimados na Ásia começaram a olhar para os emergentes com pânico: se a Coreia quebrou, por que a Rússia não quebraria?

O Banco Central queimava reservas defendendo o corredor cambial do rublo. Em março, Iéltsin demitiu o governo inteiro e entregou o país a Serguei Kiriyenko, um tecnocrata de 35 anos. Em julho, o FMI montou um pacote de US$ 22,6 bilhões. A primeira parcela, de US$ 4,8 bi, evaporou em semanas na defesa do câmbio.

US$ 11
Brent no fundo · 1998
100%+
juros dos GKOs a.a.
US$ 22,6 bi
pacote FMI · jul/98
~50%
da indústria operando em escambo
Capítulo 03 · O impensável

17 de agosto de 1998

"Não haverá desvalorização. Isso eu afirmo com firmeza e clareza."— Boris Iéltsin, declaração pública em 14 de agosto de 1998 — três dias antes do default

Na segunda-feira, 17 de agosto, o governo anunciou o pacote do impensável: default nos GKOs e OFZs (a própria dívida doméstica, em rublos — algo que países "não fazem", já que poderiam imprimir moeda), abandono do corredor cambial e moratória de 90 dias nos pagamentos de bancos russos a credores estrangeiros.

O rublo foi de 6,2 para mais de 20 por dólar em semanas. Bancos inteiros — Inkombank, SBS-Agro, Menatep — viraram pó, levando junto, pela segunda vez na década, as poupanças das famílias russas. Kiriyenko caiu em dias; o veterano Ievguêni Primakov assumiu para estancar a hemorragia política.

Ievguêni Primakov, primeiro-ministro da Rússia 1998-99
Ievguêni Primakov, o ex-chefe da inteligência que assumiu o governo no caos de setembro de 1998. · RIA Novosti #38725, Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Capítulo 04 · O contágio reverso

Dois Nobéis a um passo de derrubar Wall Street

O default russo detonou a maior quase-catástrofe financeira dos EUA até 2008. O Long-Term Capital Management — fundo de hedge com dois prêmios Nobel de economia no conselho e modelos matemáticos "infalíveis" — apostava na convergência de spreads. O default fez todos os spreads do planeta explodirem na direção contrária ao mesmo tempo.

Com exposição de quase US$ 1 trilhão em derivativos sobre capital de US$ 4 bilhões, o LTCM derretia tão rápido que o Fed de Nova York convocou os maiores bancos do país para um resgate privado de US$ 3,6 bilhões — em 23 de setembro de 1998 — para evitar uma liquidação em cadeia. A lição de que modelos elegantes morrem em eventos de cauda foi anotada... e esquecida dez anos depois.

−US$ 4,6 bi
perdas do LTCM em 1998
~US$ 1 tri
exposição em derivativos
US$ 3,6 bi
resgate coordenado pelo Fed NY
−40%
real brasileiro · jan-mar/1999
Capítulo 05 · O custo humano

A década que roubou duas vezes

Para o russo comum, 1998 foi a segunda expropriação em sete anos: a hiperinflação de 1992 já havia destruído as poupanças soviéticas; agora os bancos privados levavam o que restara. A renda real caiu, salários e aposentadorias ficaram meses sem pagamento, e a expectativa de vida masculina — já em queda livre na década — seguiu entre as piores do mundo industrializado.

O trauma moldou a política russa: a década de 90 ficou associada a caos, humilhação e Ocidente — e a estabilidade posterior, ao homem que Iéltsin nomearia premiê em agosto de 1999: Vladimir Putin. Sem o 17 de agosto, a história política da Rússia — e do mundo — seria outra.

Boris Iéltsin na Praça Vermelha, 9 de maio de 1998
Boris Iéltsin, presidente da Rússia (1991–1999). A década que começou com esperança terminou no caos de agosto de 1998. · Wikimedia Commons (CC)
Capítulo 06 · Epílogo

O renascimento mais rápido da história

E então, o inesperado: a recuperação foi fulminante. O rublo barato tornou a indústria doméstica competitiva da noite para o dia — a substituição de importações fez a economia crescer já em 1999. O petróleo voltou a subir e não parou na década seguinte. Sob Primakov e depois Putin, a Rússia passou a rodar com superávits gêmeos, quitou a dívida com o FMI antecipadamente e criou o Fundo de Estabilização para blindar o orçamento do preço do barril.

O paradoxo de 1998: o default que humilhou a Rússia plantou a disciplina fiscal que a sustentaria nas décadas seguintes — incluindo a fortaleza de reservas testada pelas sanções de 2022. Para os mercados, ficou o aviso que o LTCM escreveu com o próprio sangue: na cauda da distribuição, todas as correlações vão a 1.

"Na crise, a única coisa que sobe é a correlação."— Máxima de mercado consagrada pelo colapso do LTCM, 1998

Análise · O que 1998 ensina

Quatro lições para o monitor de risco

L·01

Dívida em moeda própria também quebra

O dogma dizia que um país não dá calote no que pode imprimir. A Rússia preferiu o default à hiperinflação — e reescreveu o manual de risco soberano.

L·02

Petrodependência é risco fiscal

Brent a US$ 11 quebrou o orçamento russo. Toda economia exportadora de commodity carrega o preço do barril dentro da própria moeda.

L·03

Alavancagem transforma crise local em global

Um default em Moscou quase derrubou Wall Street via LTCM. O canal de contágio não era comércio — era alavancagem e modelos correlacionados.

L·04

Desvalorização pode ser renascimento

O rublo barato ressuscitou a indústria russa em meses. A lição amarga: às vezes o colapso cambial é o início da cura — a um custo social brutal.